A História da Grã-Bretanha 13/15 Victoria e suas irmãs (legendado-Ativar legendas)


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Transcript:
Primavera de 1851. A palavra "Victoriana" entra na lingua inglesa
e uma pequena mulher pequena entra num grande edifício.
Mede só 1,47 m e é robusta.
O momento, tão importante para o futuro, parece sagrado.
A mesma Victoria se inunda de reverência religiosa.
Senti-me plena de devoção,
mais do que qualquer serviço religioso que tenha visto antes.
Nem ela nem ninguém
tem visto algo assim antes neste edifício,
uma estufa do tamanho de um palácio, com a diferença de que este é,
desde o seu início, um palácio do povo.
Uma popular revista o chama de o Palácio de Cristal.
Seus grandes espaços estão ocupados não por cortesãos e lacaios,
mas por bombas a vapor e locomotivas,
uma excelente vitrine do império industrial britânico.
Apenas três anos antes, em 1848,
as revoluções retalharam a Europa.
O governo temia que o mesmo ocorresse aqui.
Porém resultou que enquanto outros países tiveram revoluções e guerras,
tivemos a Grande Exposição.
Outros paises tiveram barricadas,
tivemos a alegre corda para passar o torniquete.
Numa era obcecada pelos receios de superpopulação,
este foi um dos maiores movimentos de massas
em toda a história europeia.
Seis milhões vieram ver o show dos shows.
Em 1848, as máquinas industriais pareciam
as inimigas da humanidade,
brandindo garras famintas que se alimentavam de inúmeras vidas,
acabando cuspindo-as como algodão ou pregos.
A tecnologia, advertiram os profetas da desgraça,
era um motor de desumanidade,
que levava os trabalhadores ao desespero ou à rebelião.
Mas dentro do resplandecente Pakácio de Cristal,
alguém parecia ter usado de uma varinha mágica sobre as bestas mecânicas,
convertendo-as de ogros em atarefados e amáveis gigantes,
felizes por serem contemplados por famílias em excursão
e não menos pela primeira família do país,
reunida no meio da maquinaria.
Afinal, papai, o príncipe Albert, a força motriz da exposição,
foi o primeiro príncipe na história da Europa
a conduzir sua conexão com o mundo dos negócios
com um crachá de orgulho, não de vergonha.
Mas o que a mamãe pensava?
Como mãe de uma família que se espalhava rapidamente,
poder-se-ia esperar que Victoria soubesse que se o culto ao progresso
ia fazer da Grã-Bretanha não só uma grande nação, mas uma boa nação,
iria construir lugares, não rompê-los,
correspondia às mulheres orientar-nos através
da dolorosa mudança até a uma sociedade industrial ilesa.
Mas, evidentemente, a sua não era uma família normal
e apesar das fotos de família, a Rainha Victoria não era uma Miss normal.
A que levaria seu nome
ia transformar a vida das mulheres
que Victoria nunca imaginaria
na deslumbrante primavera do seu reinado.
Acolheria com agrado, sem sequer entendê-las,
passariam deixando-a atrás e a seu Palácio de Cristal
e isso ficaria todavia por ver.
VICTORIA E SUAS IRMÃS
Em 1837, quando foi coroada Rainha, Victoria tinha apenas 18 anos.
Era pura como um botão de rosa, o que parecia uma mudança bem-vinda
após os reinados impuros de seus tios George IV e Guilherme IV,
viciados nos prazeres de cama e mesa
e indiferentes ao sofrimento suportado pela maioria de seus súditos.
Ao contrário de seus tios, Victoria foi educada
como um modelo de moderação virginal e abnegação.
Nada de mimos por parte da Regência.
Num ponto, ela e sua mãe, a Duquesa de Kent,
foram obrigadas a sair do Palácio de Kensington para poupar dinheiro.
Assim, Victoria passou seus anos de infância
em lugares ordinários como Ramsgate ou Sidmouth.
Muito mais tarde em sua vida, por alguma razão,
Victoria via sua infância como um tempo de tristeza e solidão.
É verdade que, como muitas crianças de classe média e aristocráticas,
estava sujeita a um regime evangélico
de orações e de constante auto-exame.
Escreveu um livro sobre comportamento, cheio de entradas solenes e auto crítica.
Esta, de agosto de 1832, diz:
"Muito, muito, muito" - (sublinhado) - "horrívelmente" - (sublinhado) - "mau".
Mas poderia a aspiração cristã por melhorar a força motriz de sua geração,
passar a melhorar as pessoas e melhorar a vida do seu povo?
Essa era a questão.
Em sua primeira visita ao coração das escuras industrias da Inglaterra,
a princesa adolescente pôde ver o que estava enfrentando.
Próximo a Birmingham, viajou através
da paisagem infernal britânica: enegrecida e sulfurosa.
Os homens, mulheres e crianças, o campo e as casas são todos escuros.
O campo está desolado em todas as partes.
O carvão em toda parte e a grama toda arruinada e negra.
Agora mesmo posso ver um extraordiário edifício em chamas,
expelindo fumaça e queimando pilhas de carvão,
intercalados com as favelas miseráveis e carros e crianças esfarrapadas.
Mas o que viu de sua carruagem foi o mais perto que Victoria esteve
da deprimente realidade da Grã-Bretanha das chaminés.
Em qualquer caso, teria outra coisa em mente:
seu próximo encontro com a história.
Com seus túmulos, coroas e tronos, estaria preparada?
O tempo viria cedo demais na madrugada de 20 de junho de 1837,
a princesa adolescente, em sua camisola,
despertada pela chegada de Lord Chamberlán
e o Arcebispo de Canterbury.
Que me informaram que meu tio, o Rei tinha morrido
e que, consequentemente, sou Rainha.
Sou muito jovem, talvez em muitas coisas,
mas não muitas, sou inexperiente.
Mas estou certa de que poucos têm mais boa vontade
e desejos de fazer o necessário que eu.
Na sua coroação, em 28 de junho de 1838,
a jovem Rainha mostrou que estava certa...
carregando o enorme peso do vestuário e ornamentos com altivez.
Mas também conseguiu algo mais importante do que dignidade:
um toque de humanidade.
Quando Lord Rolle, de 87 anos,
cambaleou ao tentar subir as escadas do trono para render-lhe homenagens,
o bondoso instinto de Victoria foi levantar-se
e descer escadas para se encontrar com ele.
Todos perceberam.
Era jovem, mas não precoce.
Sabia que ele precisava de ajuda e foi o suficiente prudente para pedir
a alguém muito capaz de proporcionar:
o Primeiro Ministro Whig, Lord Melbourne.
Ganhou a confiança de Victoria com a simples mas inspirada tática
de nunca, nunca, ser condescendente com ela,
nunca tratá-la como uma menina que precisa de proteção.
Em vez disso, tratou-a como adulta,
o bastante sofisticado como para desfrutar a sabedoria do mundo,
suas políticas e fofocas e mesmo suas piadas.
Sob sua orientação,
a confiança de Victoria e sua pessoa pública floresceram.
Foi, naturalmente, o partido mais disputado da Europa,
a mãe de Victoria organizava banquetes e bailes
para garantir que Victoria conhecesse Príncipes casadouros...
...incluindo seus primos Sajonia-Coburgo, Ernest e Albert.
Poderia muito bem ter sido seu tio Leopold
o primeiro a sugerir a Victoria, na primavera de 1939,
que talvez gostaria de se casar com o Príncipe Albert de Sajonia-Coburgo.
Como toda jovem, provavelmente,
a principio pareceu-lhe uma questão um pouco embaraçosa,
mas acostumou-se a ela,
como ela descrevia, "angelical cabeça germânica",
foi ela quem tomou a iniciativa,
agarrando seu pretendente
e levando-o rápido ao altar.
Foi Victoria quem forneceu o anel...
e pediu a Albert um tufo de cabelo...
e se deleitava em sessões de beijinhos.
Embora às vezes parecesse determinada
a levar os pantalones no casamento,
houve outras ocasiões,
especialmente após o casamento, em que Victoria simplesmente se derretia
em assombroso êxtase de amor conjugal.
Quando amanhecia, e que não dormiamos demais
e contemplava essa bela e angelical face a meu lado,
era mais do que eu posso expressar.
Parecia tão bonito apenas em seu camisolão,
seu formoso pescoço à vista.
Já no segundo dia de nosso casamento,
seu amor e ternura está mais forte ainda,
e beijar essas suaves e amadas bochechas,
colocar meus lábios sobre os seus é um êxtase celestial.
Meu caro Albert me tirou as meias.
Fui vê-lo fazer a barba.
Um grande prazer para mim.
A paixão de Victoria e Albert um pelo outro
era um assunto estritamente privado.
Mas para muitos britânicos,
nas lotados cidades industriais, como Manchester,
a privacidade no quarto era um luxo inimaginável.
Manchester era o melhor e o pior e
levado a extremos assustadores;
uma espécie de cidade nova no mundo,
com as chaminés dos subúrbios industriais soltando colunas de fumaça.
200.000 abelhas lotadas na colméia,
fazendo dinheiro para os senhores de Algodonópolis.
Um visitante americano, levado aos pontos negros de Manchester, viu:
Miseravel, estafante, oprimida, esmagada natureza humana,
abandonada em fragmentos sanguinolentos.
E agradeceu a Deus por não ter nascido na pobre Inglaterra.
Os teares de algodão eram mestres brutais e exigentes nas tarefas.
Famílias inteiras passavam quase todas suas horas no trabalho
ocupadas nas máquinas.
As crianças faziam trabalhos menos perigosos,
como recuperar restos de algodão sob as máquinas em movimento.
Mas por muito ruim que fosse isso, era pior quando não havia trabalho.
Nos primeiros anos de reinado de Victoria,
dezenas de milhares de trabalhadores foram demitidos.
Seria uma mulher, Elizabeth Gaskell,
quem daria um sinal de alerta,
a primeira das Irmãs de Victoria a sentir o problema.
Surpreendentemente, seu ardente protesto tomou a gentil forma de um enredo.
Mas, muitas vezes, de um livro.
Quando "Mary Barton", foi publicado em 1848,
ninguém, nem mesmo Charles Dickens, tinha ido tão longe como Gaskell
para descrever de forma rigorosa a lúgubre realidade da miséria industrial.
Esposa de classe média de um pregador Unitarista,
Gaskell se embrenhou nas mais baixas profundidades da cidade,
nas tabernas, esgotos abertos, no fedor das vielas escuras,
onde crianças esqueléticas se misturavam com ratos.
Em "Mary Barton" não só se veria, mas ouviria os trabalhadores de Manchester
nas páginas da literatura pela primeira vez.
Para a maioria de seus leitores,
devia ser uma linguagem mais estranha que o francês ou alemão.
(HOMEM) Não queremos esquisitices, queremos barrigas cheias.
Não queremos seus casarões,
queremos um telhado que nos cubra da chuva, da neve e da tempestade.
Sim, e que não apenas nos cubra,
mas aos indefesos que se apegam a nós no penetrante vento
e nos perguntam com seus olhos
por que o trouxemos a este mundo para sofrer.
Para quando alguém acaba "Mary Barton",
uma palavra que nos golpeia como um martelo uma e outra vez,
ficarão alojados em nossa memória.
A palavra é "faminto".
Alguém o diz, e evoca todo o cortante mundo
da luta pela sobrevivência que Elizabeth Gaskell criou.
Elizabeth Gaskell acreditava que a informação social e honesta
podia melhorar as coisas.
Escreveu a seu primo:
Minha pobre "Mary Barton" está despertando todo tipo de sentimentos de raiva
contra mim em Manchester.
Mas os que conhecem bem
como os pobres pensam e sentem reconhecem a verdade,
e esse é o reconhecimento que mais desejo,
porque os males uma vez reconhecidos, estão na metade do caminho a remediar-se.
Um dos fãs de Gaskell, o filósofo social Thomas Carlyle,
pensava que era inútil tentar melhorar
um sistema tão fundamentalmente desumano como a industrialização.
Nada é feito à mão. Apenas por calculadas e rígidas invenções.
Cada dia, o artesão atual é retirado de sua oficina
para dar lugar a um mais rápido e inanimado.
Ao tecelão se lhe cai a bobina dos dedos,
caem em dedos de ferro que o tecem mais rápido.
A maquinaria não tem fim.
Para Carlyle só havia um caminho para a salvação:
a Bretanha devia deixar as máquinas, e evocar
o espírito dos séculos cristãos da Idade Média,
a última vez que haviamos dado por certo
que a fé era mais importante que dinheiro.
Para realizar esta grande conversão de Babilônia em Jerusalém,
só valeria uma revolução cristã na construção.
E ninguém estava mais convencido disto que
o maior dos ressuscitadores góticos:
Augustus Welby Northmore Pugin.
Uma nova geração de igrejas estaria na frente
da guerra para salvar almas Victorianas.
Mas `Pugin nunca se contentou apenas em expressar sua opinião.
Acreditava, com todo o fervor da antiga fé
que uma igreja embelezada adequadamente era a mesma face do céu.
E antes de morrer, brutalmente na idade de 40 anos, ele assegurou,
especialmente aqui, na Igreja St Giles em Cheadle, Staffordshire,
que as pessoas viram o quão gloriosamente colorida podia ser.
Mas por muito que isto servisse como alimento ao espírito,
não iria colocar pão nas mesas dos milhões de necessitados.
A primeira década de Victoria como Rainha
foi também um tempo de privações econômicas a muitos de seus súditos.
A queda no comércio externo levou à demissão em massa nas cidades.
O pão era um luxo além do alcance dos desempregados,
que culpavam as leis do grão por não permitir a importação de trigo barato.
A ira e o desespero dos trabalhadores estavam perto do ponto de ebulição.
Para os reformadores da classe média, a resposta era fácil:
tudo o devemos fazer é eliminar as leis do grão e tudo ficará bem.
Porém, os porta-vozes dos militantes trabalhadores não estavam convencidos.
Queriam mais.
Somente um governo verdadeiramente popular, uma democracia de fato,
faria algo para resolver suas penas.
Refletidas suas exigências numa carta do povo,
uma nova Magna Carta para a idade moderna.
Exigia o direito de voto para todos os homens,
o voto secreto, e parlamentos anuais.
Como consegui-los? Força moral se pudermos, força física, se preciso.
Num clima de medo e ódio,
as pessoas deviam decidir onde estava sua lealdade.
Se um estava à direita da pista,
se outro era proprietário de uma grande fiação,
como este em Ancoats,
pensaria que os "Cartistas" não eram mais que uma multidão de demagogos.
Além disso, quem disse que o capitalismo era um parque de diversões?
Embora mantivesse as mãos longe do mercado,
bem, o mercado mais cedo ou mais tarde se corrigiria sozinho.
E os pobres, as pessoas que trabalham aqui e que agora tinham fome,
se alimentariam das carnes da terra amanhã.
Em 10 de abril de 1848, uma imensa petição Cartista,
assinada por quase dois milhões de homens e mulheres,
tão grande que foram necessários dois carros para levá-la ao Parlamento,
foi levada a Londres.
Em torno de 150.000 Cartistas com cartazes e rosetas verdes, vermelhas e brancas
se reuniram no Campo de Kennington
para o maior comício político da história britânica.
O Governo estava preparado para eles.
Londres tornou-se um imenso acampamento, com guardas armados
e inclusive canhões localizados em pontos estratégicos
como a Torre de Londres e o Banco da Inglaterra.
Os soldados se posicionaram no The Mall e impediram acesso ao Palácio de Buckingham,
mas a família real havia fugido para a ilha de Wight.
Olhando esta imensa manifestação de força armada,
o líder Fergus O'Connor, proprietário de um periódico e parlamentar, não teve escolha.
Deu ordens a que ninguém provocasse os soldados, mesmo que eles o fizessem,
já que isso resultaria num banho de sangue.
Alguns dos jovens instigadores acreditavam que era uma capitulação.
Mas o que se supunha que Fergus O'Connor devia fazer?
Lançar seu exército popular contra os soldados da Rainha
para que acabassem ceifados?
E que de bom isto faria
à causa dos trabalhadores da Bretanha?
Além disso, vejam esta foto de um comicio no campo.
A primeira imagem política da nossa história.
Não parecem estar a ponto de assaltar as barricadas, certo?
Pode que no momento já acabara a ameaça tipo revolução
que se se propagara pelas capitais europeias em 1848, também aqui.
Mas o sonho de tantos trabalhadores
de ter um lugar decente para viver, o suficiente para comer,
por uma parte da bonança victoriana era tão urgente como nunca.
E se não iam conseguir com uma revolta armada,
iriam conseguir à maneira britânica: em pequenos passos, mas determinados,
em conjunto em comunidades auto-suficientes.
Isto é tudo o que sobrevive intacto daquelas pequenas quimeras,
uma das casas de campo do assentamento da Companhia da Terra Cartista
em Great Dodford, Worcestershire.
Fundada em 1845, a Companhia da Terra
era a criação de ninguém mais que Fergus O'Connor.
Comprou terras, que dividiu entre seus membros em pequenas partes,
e supunha tirar as pessoas dos bairros industriais
e retornar ao desenvolvimento rural de seus antepassados.
Deu-lhes alguns ha de terra para o cultivo de alimentos.
"Fazer ou morrer" era o lema dos colonos que chegavam
a locais como Great Dodford e seu trabalho não seria um piquenique;
arar o solo, plantando sebes, abrir caminhos e com um resultado incerto.
Mas alguns deles estavam determinados a ser bem sucedidos, especialmente as mulheres.
Ann Wood, por exemplo, que viveu numa casa muito semelhante a esta,
era só uma Cartista de Edimburgo,
mas com determinação suficiente e capacidade de economia escocesa
para guardar 150£ para aplicar uma parcela em Great Dodford.
Isso lhe deu o melhor da colheita.
E, após assentar-se no nº 36 juntamente com suas duas filhas,
Ann fez bem o suficiente para viver uma vida longa, até a idade de 86 anos.
Assim que quando o ruido e a fúria se acalmaram,
o que parecia contar à maioria era criar um lar, não uma revolução.
O mesmo Príncipe Albert entendeu isso.
No ano da Grande Exposição,
encarregou e fez construír acomodações modelo para a classe trabalhadora.
Mais tarde construíiu-se em Kennington,
no mesmo local em que a revolução Cartista não aconteceu.
E enquanto o "boom" do 1850 substituia os famintos 1840,
a Bretanha nunca pareceu tão classe média, iniciada pela monarquia.
Os milhares de cartões fotográficos que circulavam pelo país
mostravam a Rainha e o Príncipe Albert em seus aristocráticos cavalos,
representando os rituais da vida da classe média.
Respeitáveis, de confiança, até mesmo um pouco chatos.
a Rainha Victoria acabou tendo nove filhos no total
e nunca a Grã-Bretanha teve um monarca que se empenhasse tanto
em anunciar seus prazeres domésticos à nação.
Um passeio pelo parque.
As brincadeiras com as crianças.
Cantando canções de Natal em torno da árvore natalina.
E, na ilha de Wight, um modesto lugar na costa, para refúgio, Osborne House.
Projetado por Albert e desfrutado por Victoria
como um idílico retiro às pressões do reino.
Foi aqui por fim onde Albert, ao se apartar dos trabalhos públicos,
colocou sua mesa ao lado da dela,
de onde podia dirigir sua campanha
para fazer da Grã-Bretanha industrial um lugar não só mais rico, mas melhor.
Vendo-os aqui trabalhando árduamente em conjunto,
alguém poderia supor que era uma sociedade perfeita.
Mas não tão perfeita como para que este casal,
tão devotos um ao outro em qualquer outro aspécto, se salvasse dos debates.
Tiveram suas divergências como todos nós.
Victoria, és demasiado apressada e apaixonada
como a permitir-me, às vezes, de falar sobre minhas dificuldades.
Não me ouve, mas por pouca coisa
me sobrecarrega com acusações e suspeitas,
falta de confiança, ambição e inveja.
Por seu lado, Victoria também perdia o controle
quando se punha nervosa.
Os solteiros, dizia por vezes,
eram muito melhores que casados infelizes,
forçados a permanecer juntos por conveniência.
O casamento é tal uma loteria.
A felicidade é sempre uma troca, embora um possa ser muito feliz.
Mesmo assim a pobre mulher é escrava do marido de corpo e alma.
Isso sempre me engasga.
Surpreendentemente, isto repetia exatamente o tipo de palavras
que saiam da boca e da pena dos críticos mais ousados
das convenções victorianas de casamento:
John Stuart Mill e Harriet Taylor, marido e mulher durante sete anos,
amantes torturados de uma peculiar forma victoriana durante muito mais
e autores de "A Escravidão da Mulher".
Esta era, não se esqueçam, uma época em que as propriedades da mulher
passavam automaticamente a seu marido quando se casava.
Os maridos tinham o direito a pegar suas mulheres,
sempre e quando o bastão não fosse mais grosso que seu polegar
e podiam prendê-las se recusassem a fazer sexo.
Em 1830, o filósofo John Stuart Mill
foi a um jantar que mudou sua vida para sempre.
Ficou atordoado pela visão de um pescoço de cisne e enormes olhos escuros.
Pertenciam a Harriet Taylor,
escritora, poetisa e, infelizmente, casada.
Entre a sopa e o vinho,
John e Harriet se viram surpreendidos pelo conhecimento instantâneo
de que encontraram suas verdadeiras almas gêmeas.
Mas sendo dois intelectuais sérios, o amor proibido de Mill e Taylor
não podia ser apenas uma egoísta paixão privada.
Teria de pensar em voz alta como um assunto público.
Sua situação não seria pôr em evidência
a hipocrisia do casamento victoriano sem amor.
(HOMEM) Em alguns códigos de escravatura, o escravo podia,
sob certas circunstâncias de abuso,
forçar juridicamente seu amo a vendê-lo.
Mas não havendo muito maltrato, sem adultério adicionado
fará, na Inglaterra, uma mulher livre de seu algoz.
Certamente não havia outra saída a não ser o adultério
ou sofrer as desgraças em silêncio.
O que se fazia era colocar o casamento em evidência,
como a transação de propriedade
e então usar a educação e a lei para ensinar e proteger as mulheres.
Taylor e Mill teriam de esperar 19 anos
para ter uma oportunidade de praticar aquilo que pregavam.
Em 1849, o marido não amado de Harriet finalmente morreu,
limpando o caminho para que pudesse se casar com John.
Não antes de ele renunciar formalmente a todos os direitos que a lei lhe dava
sobre as propriedades e pessoa de sua esposa.
Sua felicidade durou pouco.
Harriet Taylor morreu de tuberculose em novembro de 1858.
Mas havia um epitáfio.
Todas suas ideias se verteram em "A Escravidão da Mulher",
seu livro em conjunto, que Miller publicou em 1869.
Casamentos felizes e igualdade já não eram sua única preocupação.
As mulheres, que eram a metade da força de trabalho na Grã-Bretanha,
deveriam ter igual pagamento por seu trabalho.
E o mais surpreendente de tudo, deviam ter direito ao voto.
Era um livro cujas idéias
deram um forte impulso ao Movimento da Mulher.
Após a lei da Segunda Reforma em 1867
Quase todos os chefes de famílias tinham direito ao voto,
o que fazia o fato de que as mulheres chefes de famílias não o tivessem
parecer extremamente injusto.
Mill, que era parlamentar, tentou defender sua posição,
e inclusive obteve o apoio de outros 73 parlamentares.
Perderam a votação, evidentemente, mas as palavras foram ditas,
e foram ouvidas com ressonância especial em Manchester, da Sra. Gaskell.
Tinha-se dado um passo decisivo,
e uma democracia digna de seu nome não podia ser só para homens.
Talvez a Rainha Victoria tivesse suas dúvidas sobre os casamentos infelizes,
mas esta era uma violação da ordem divina
das relações corretas entre os sexos.
Ela seria conhecida pelo que pensava:
Esta loucura depravada dos direitos das mulheres,
com todos seus horrores associados que dobram nosso pobre sexo frágil,
esquecendo todo sentido de propriedade e sentimento femininos.
Havia trabalhos adequados para as mulheres, Victoria admitia,
mas apenas do tipo que usasse as qualidades de ternura
que Deus tinha dado ao seu sexo.
As enfermeiras, por exemplo, são chamadas de irmãs.
Mas era necessário que o próprio sobrinho da Rainha
chamasse a uma delas mamãe?
Pode que Florence Nightingale colhera a reputação,
na Grã-Bretanha, entre civis, como o Anjo da Piedade de Crimeia,
mas a mulher a quem os soldados sobreviventes mais adoravam
e pela boa razão de que os ajudavam a passar o pior,
foi a mais negligenciada e mais improvável das irmãs de Victoria.
E seu nome era Mary Seacole.
Maria Seacole era das Indias ocidentais,
filha de um escocês e uma jamaicana.
Autodidata, seus remédios caribenhos se tornaram famosos
após ter demonstrado que podiam deter uma violenta disenteria
e trazer enfermos de febre amarela e cólera das portas da morte.
Quando a Grã-Bretanha aderiu à Guerra da Crimeia em 1854,
tentou prestar seus serviços como voluntária no front.
Mas Mary não encaixava exatamente no perfil de enfermeira de classe média.
Foi rejeitada pelas companheiras da Enfermaria Nightingale.
Então Maria foi à Crimeia sem ajuda de ninguém, com o seu próprio dinheiro.
E uma vez ali, fez algo verdadeiramente notável.
Maria Seacole construiu seu "British Hotel" justo no front,
que tinha o duplo papel de refeitório, alimentando os rapazes em ação
e posto de recuperação aos doentes e feridos.
Cada manhã, cozinhava alimentos nutritivos, como arroz doce,
selava um par de mulas e ia ao centro da ação,
buscando feridos a quem distribuía alimentos, chá quente, medicina
e, acima de tudo, amor maternal.
Fogo de morteiros passavam assobiando enquanto a velha mulher corria as linhas.
Nessas ocasiões, os que estavam ao seu redor gritavam:
"Jogue-se ao solo, madre, jogue-se no chão!"
E com uma pressa indigna e pouco senhorial
tinha de abraçar a terra.
Quando a guerra terminou, os soldados a homenagearam numa festa de caridade.
Tornara-se, resumidamente, numa "Victoriana Excelente."
Suponhamos, porém, que as mulheres atraidas em ajudar os doentes
fossem um passo além e sonhassem em se tornarem médicas.
Essa era uma outra história.
Em 1860, Elizabeth Garrett
alistou-se como enfermeira-cirúrgica no Hospital Middlesex,
mas tinha interesse em algo maior.
Entre esfregões e urinóis,
observava cuidadosamente as operações cirúrgicas
e estava sempre cortando partes de corpos em seu quarto.
Esta educação improvisada a fez bastante ousada
como fazer exames médicos do hospital, não os de enfermagem
e quando chegou a hora de publicar os resultados, uma tal E. Garrett era a primeira.
Foi-lhe ordenado manter o escândalo em segredo, mas ela o tornou público.
Nove anos mais tarde, os franceses lhe concederam um diploma de medicina.
E, em 1874, a primeira universidade especificamente para as mulheres
foi inaugurada em Londres.
Para Victoria, a mera idéia de grupos de mulheres assistindo
e muito menos cortando corpos nús de homens mortos,
era uma indecência inimaginável.
Mas nenhum médico podia ajudá-la na maior crise de sua vida.
Já que em 1861, o mesmo ano
em que Elizabeth Garrett abria passagem na medicina,
Albert contraiu febre tifóide,
que, após alguns meses de horrivel e rápida deterioração,
culminou em sua morte, em dezembro.
Tudo nessas últimas semanas
subitamente estava dotado de um significado quase religioso.
Aqui, por exemplo, está o último livro lido por Albert,
"Peveril do Pico", de Scott, e em sua ourela a Rainha escreveu:
"Este livro foi lido até a página 81 pelo meu amado esposo,
"durante a sua doença fatal
"e até três dias antes de seu terrível fim. "
Indo à página 81, isto é o que diz:
"Ouvi o som de vozes,
"mas não deixaram qualquer impressão de que queriam dizer;
"e em alguns minutos havia dormido mais profundamente
"do que ele nunca o havia feito durante toda sua vida. "
Victoria enterrou seu amado Albert no mausoléu Italianate
que construiu aqui em Frogmore, Windsor Great Park.
A morte de Albert mergulhou Victoria num ataque de tristeza.
A estoica aceitação da inescrutável vontade de Deus não ia com ela.
Havia perdido não só seu co-governante, mas seu colaborador,
e perdido também, estava seu idílio doméstico.
No abismo de sua dor,
devia pensar que toda oportunidade de alegria se tinha ido.
Minha vida de felicidade acabou.
O mundo se foi para mim.
Se devo continuar vivendo, não farei nada para piorar meu estado,
será só por nossos pobres filhos que perderam o pai
e por meu triste país, que perdeu tudo ao perdê-lo.
A morte era uma presença constante na vida Victoriana,
talvez porque era a conquista
que havia sido negada a soldados, engenheiros e capitães da indústria
que pareciam capazes de conquistar todos os demais.
Embora não podiam evitar que seus entes queridos morressem,
podiam, pelo menos, criar a ilusão no mármore e em fotografias
como se ainda estivessem com eles.
E isso, em sua angustiante e inconsolável dor, era algo que Victoria sabia fazer.
Com religiosa devoção, preparava todas as manhãs as coisas de Albert,
sua roupa noturna e uma toalha limpa todas as noites.
Faltando sua presença física,
dormia com o camisolão dele a seu lado.
A exuberante e teimosa jovem isolou-se em dura redoma
de uma seca e inconsolável viuva em que o mínimo sinal de alegria
era uma traição à sagrada memória de Albert.
Parecia, de uma forma que ninguém habituado à Rainha resoluta
podia imaginar
ter perdido o controle de si mesma como do país.
O senso de controle moral de Victória,
tão forte no início do seu reinado,
tornou-se tão dependente do juizo de Albert, O Bom,
que agora que não mais estava, ela parecia perdida
sobre como e onde usá-lo.
Nunca se lhe ocorreu que as mulheres sós, tanto viúvas como solteiras
pudessem ser capazes de fazer algo de bom por si só,
construir uma vida, inclusive uma carreira por si mesmas.
Se quisesse ver como podia fazer isto,
tudo o que tinha a fazer era montar em seu pônei
um ou dois quilômetros estrada abaixo desde Osborne até Freshwater,
visitar alguém que, embora não fosse viúva nem solteira,
era uma mulher por si mesma.
A fotógrafa Julia Margaret Cameron.
Sendo Victoria uma ávida colecionadora de fotografias,
talvez sentisse curiosidade
sobre o famoso quarto escuro desta excêntrica mulher francesa.
Para Julia Cameron, a fotografia não era apenas um hobby.
O poético lirismo de suas fotos
dissimula a severa necessidade que tinha de arranjar dinheiro.
Pior ainda, parecia brilhar perversamente na parafernália masculina câmara de trabalho.
Fazendo barulho no galinheiro que havia convertido em estudio,
com suas mãos e roupas manchadas de negro pelo nitrato de prata,
recrutando homens e mulheres modelos como um sargento
e rugindo de forma assustadora se se movessem antes do tempo.
Escusado será dizer que os dirigentes da Real Sociedade pela Fotografia
negaram-se levá-la a sério.
Embora admirando o entusiasmo da senhora Cameron,
o Comité lamenta não partilhar dos generosos elogios
recebidos pelas suas produções por parte da imprensa fotográfica,
o Comité está convencido de que adotará
uma forma totalmente diferente de representar suas ideias poéticas
quando chegar a conhecer todas as possibilidades desta arte.
O que queriam dizer, obviamente, era que não se podia esperar
de uma fraca mulher que dominara a maquinaria, os produtos químicos,
a dificil tecnologia do trabalho,
e muito menos fazer dele uma carreira profissional,
apesar do aparente sucesso de Julia, em ambos os aspectos.
Mas alguns dos mais poderosos e inteligentes entre os grandes e bons:
Tennyson...
Carlyle...
e o astrônomo Sir John Herschel, que posaram obedientemente,
não se deixaram enganar pela leveza de sua obra poética.
Adotaram-na como a maior retratista de sua época.
O triunfo de Julia em fazer da arte sua profissão
não passou despercebido às jovens mulheres de 1870 e 80
que queriam a elas mais que um destino como esposas e mães.
Depois que o Colégio Girton, o primeiro de Oxbridge para mulheres,
abriu suas portas perto de Cambridge em 1873,
tiveram, pela primeira vez, um lugar onde se educar,
liberando-se, assim, a escolha de vida doméstica de classe média.
Mas, mesmo enquanto bebiam conhecimento por detrás das paredes de Girton,
algumas dessas mulheres procuravam ir mais além do claustro.
Os antigos trabalhos para as mulheres, ensinar, pregar, curar, cozinhar,
já não eram suficientes.
Nem ser, inclusive, uma designer educada na Casa Formosa.
Atraiu-as, como atraiu Elizabeth Gaskell uma geração anterior,
a fealdade ao seu redor
numa Grã-Bretanha que sentia uma vez mais, a tensão de uma crise econômica.
Algumas inclusive decidiram construir novos locais
em lugares dos mais escandalosos para geração de suas criações:
nos bairros das cidades industriais,
para imbuir-se da sujeira e da ira de suas pobres irmãs maltradas...
para enfrentar a dura verdade,
o tipo de verdade que proclamava o jovem George Bernard Shaw.
A seus escravos já não importam seus gritos.
Reproduzem-se como coelhos e sua pobreza alimenta a sujeira, feiura
desonestidade, doença, obscenidade, embriaguez e homicídio.
Os mais corajosos desta nova geração
podiam mesmo olhar cara a cara as mais desagradáveis verdades,
como essa conexão entre o nascimento e a pobreza.
Annie Besant era um tipo de esposa de pastor,
impensável uma geração anterior,
e mesmo impensável para pessoas como a Rainha.
Annie Besant escandalizou o país,
publicando conselhos contraceptivos para a classe trabalhadora.
No entanto, semelhante impertinência não podia passar sem punição
e Annie foi vítima de uma ordem judicial.
Perdeu a guarda de sua filha em favor de seu ex-marido,
tempos implacáveis para as mulheres que se consideravam aptas à maternidade.
Mas nada podia impedir que seguisse em sua cruzada.
Buscando uma causa das mulheres,
Annie encontrou nas adolescentes
que trabalhavam com gases fosfóricos para Bryant & May, em Londres.
Pagavam-lhes apenas 4 e 10 shillings por semana
e, se sujavam os pés ou bagunçavam sua bancada, eram multadas,
descontando de seus patéticos salários.
O mais terrível de tudo era que as meninas estavam sempre em perigo
de ficar desfiguradas por osteonecrose da mandíbula,
devido a que Bryant & May persistiam no uso de fósforo,
quando as outras empresas o havia abandonado.
Ao mesmo tempo, a empresa
pagava enormes dividendos a seus acionistas,
dos quais um número desproporcional,
Annie teve a satisfação de revelar, pertencia ao clero.
Annie escreveu um artigo sobre a situação dessas fábricas
em seu periódico de protestos, The Link.
E junto ao socialista e companheiro de campanha Herbert Burrows,
distribuiu cópias da mesma nas portas da fábrica.
Os proprietários da Bryant & May ameaçaram as meninas
com uma dispensa imediata se não firmassem um documento,
repudiando tal artigo.
Mas em vez de assinarem, as meninas acudiram em massa
a Annie e Burrows para contar-lhes sua história. Disseram:
Falas por nós. Não vamos dar-lhe as costas.
Formou-se uma comissão de greve.
Besant e Burrows prometeram pagar o salário
de qualquer menina que fosse despedida por eles.
George Bernard Shaw se ofereceu como tesoureiro do fundo de greve.
1.400 meninas sairam. A empresa finalmente concordou
e Annie Besant e as garotas sairam triunfantes.
Foi aclamada como defensora das trabalhadoras
e imediatamente procuraram
todo tipo de mulheres ofendidas por seu tratamento.
Em 1888, Annie fez campanha para ser eleita
no Comitê de Tower Hamlets num carro adornado com fitas vermelhas.
Teve uma vitória consagradora, obtendo 15.000 votos.
Mesmo antes de poderem votar,
as mulheres demonstraram que podiam ganhar eleições locais.
A Rainha Victoria não era, de fato, cega às misérias
que tanto horrorizavam as jovens trabalhadoras sociais em 1880 e 90.
Chocada com as revelações de "O Amargo Grito dos Excluidos de Londres"
pressionou de fato o governo de Gladstone
para que dedicasse mais tempo aos problemas da habitação,
e sua insistência envolveu a criação de uma Comissão Real.
Mas, tanto se queria vê-lo ou sequer podia vê-lo,
no cálido verão do Jubileu de 1887 havia duas Bretanhas.
Quase um terço dos homens ativos estavam desempregados.
Agora, milhares de desempregados tampouco tinham onde morar,
dormindo em parques ou praças,
a classe baixa de mortos-vivos de Albion.
Mas, naturalmente, a Rainha se manteve à parte de tudo isso.
O que ela viu foram 30.000 estudantes pobres em Hyde Park,
aos que foram dado uma torta de carne, um pedaço de bolo e uma laranja
para celebrar o grande dia do Jubileu.
As crianças cantaram "Deus salve a Rainha... desafinando um pouco.
Era o tipo de coisa que punha um sorriso - sim, um sorriso -
no rosto da velha Rainha.
Seria assim durante o resto de sua vida,
o país banhado na luz de um entardecer de verão,
as caras bem esfregadas e obedientes.
A velha dama, finalmente, algo assim como a satisfeita matriarca,
a avó do Império,
com os tronos da Europa ocupados por seus descendentes.
Evidentemente, faltava alguém nesta foto de familia nacional.
Na Abadia, entre todo o esplendor,
Victoria sentiu repentinamente uma pontada.
Estava sentada sozinha, oh, sem meu amado esposo,
que para ele este tinha sido um dia de muito orgulho.
Victoria teria de esperar outros 14 anos, até 1901,
para poder-se reunir com ele:
A quem a nação e eu devemos tanto.
Seu sofrido secretário, Frederick Ponsonby,
disse que o que Victoria mais gostava era organizar funerais
e os dela não foi uma exceção.
Assim, encarregou um funeral de ataúde aberto para si mesma.
Em suas mãos havia um crucifixo de prata,
vestido branco e decorado com ramalhetes e flores primaveris.
Houve um toque de Miss Havisham nisto,
a noiva virgem de 80 anos enfeitada de flores.
Mas não plantada por seu amado, mas sim a caminho de seu encontro.
Quando encomendou a efígie em memória de Albert
ao escultor Machoretti em 1862,
Victoria insistiu em que se esculpisse a sua ao mesmo tempo,
e com sua aparência tal como quando o tiraram de seu lado,
assim se reuniriam, pelo menos em mármore, na mesma idade,
no resplandecente apogeu de sua união.
O problema era que ninguém se lembrava
onde haviam posto a estátua feita há 40 anos.
Na verdade, tinha sido guardada
num dos cômodos do Castelo de Windsor.
Finalmente foi encontrada e colocada ao lado de Albert
seguindo as ordens da Rainha.
E aqui a temos, como se o tempo tivesse parado
junto com o coração do Príncipe Consorte.
Mas não era assim, naturalmente.
Victoria podia jazer com seu amado vestida como uma princesa medieval,
mas ele, entre todas as pessoas, sabia que o progresso
tinha sido o tema principal de seu reinado.
Albert fez o possivel por fazer
o que fora uma força de bondade bem como de grandeza,
que as ondas causadas pela era das máquinas
foram contidas pela âncora moral da casa victoriana.
As mulheres da Grã-Bretanha, irmãs e filhas de Victoria,
se supunha que deviam estar gratas por isto,
deleitar-se no calor do lugar que ocupavam.
Mas os fogos aconchegantes prenderam a chama da esperança
que não podiam ser contidos numa pacífica vida doméstica.
Estes pequenos lançamentos - o livro de cheques, a chave e a bicicleta -
chamavam-nas ao umbral da porta e às ruas.
E ninguém podia saber como iam a resultar as meninas.
Cavalgando com o corpo da Rainha de Londres a Windsor
ia a viúva de um dos Vice-Reis da Índia, Lady Lytton.
Só oito anos depois, sua filha Constança,
no cárcere por Sufragista,
faria sua declaração sobre o futuro das mulheres na Grã-Bretanha...
...tatuando-se com um pedaço de porcelana e uma agulha de cabelo...
...A letra V na carne de seu peito.
Mas não era o V de Victória.
Era o V de Votos...