A História da Grã-Bretanha 12/15 Forças da natureza (legendado-Ativar legendas)


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Transcript:
Por milhares de anos, montanhas, lagos e florestas na Grã-Bretanha eram a geografia.
Mas no final do século XVIII,
tornou-se muito mais: a face de nossa nação.
Nossa paisagem se tornou em nosso país.
Quando viajantes nostálgicos pensavam com amor à Inglaterra,
recordavam-se da paisagem.
Muitos de nós ainda o fazemos.
E era, pela primeira vez, a paisagem de todas nossas nações:
os lugares selvagens do país de Gales e Escócia,
juntamente com os picos do norte da Inglaterra, redescobertos, desfrutados e mapeados.
Durante séculos, ir ao campo havia um significado, para a burguesia,
um passeio por uma fazenda,
uma Arcadia tão sonolenta com o sol como um entardecer italiano.
Mas, na segunda metade do Século XVIII,
houve uma mudança no tempo.
Os Britânicos mais aventureiros já haviam tido bastante sol de fantasia.
Queriam algo genuino e estavam dispostos a ir a lugares
onde ninguém jamais teria ido.
Exceto aqueles que escalavam os penhascos não buscavam só um pouco de emoção.
Nos lugares selvagens, acreditavam, poderiam haver sobreviventes britânicos,
os que, milagrosamente, não tinham sido afetados com os males da cidade,
sua política corrupta, seus corpos maus.
Se pudéssemos aprender alguma coisa da inocência infantil,
poderiamos ser como eles e recuperar o que significava ser livre,
ser um autêntico britânico.
A natureza, nas últimas décadas do Século XVIII,
passou a significar algo muito mais importante que jardinagem e caminhadas.
O amor pela natureza tornou-se o lema de uma cruzada, inclusive uma revolução.
E desta vez, os cruzados não iam levar roupas de caminhada.
Seriam poetas, pintores, jornalistas de pouca monta,
homens e mulheres que sentiam que se aproximava uma grande mudança
e que teriam pressa em abraçar.
O que viram foi um clima escuro e imundo.
A Bretanha estava prestes a ser atingida por um ciclone político:
uma revolução na França, do outro lado do Canal.
Os poetas e panfletistas mais ousados
desejavam que a tormenta golpeasse aqui também.
Algumas almas inquietas temiam que onde houvesse raios
também haveria incêndio e destruição.
No final, a Grã-Bretanha contornaria a tempestade.
Mas, como disse uma vez o Duque de Wellington,
"nunca estivemos tão perto de que isso acontecesse. "
Mas como tão perto? Esperem e verão.
FORÇAS DA NATUREZA
A viagem à guilhotina e a uma guerra mundial
começariam com os sonhos de um filósofo.
Mas não um velho filósofo qualquer.
Jean-Jacques Rousseau, que está enterrado nos subúrbios de Paris,
reformou os hábitos mentais de toda uma geração,
transformando-os de seres de pensamento em seres de sentimento.
Antes de Rousseau, o melhor completo para alguém era o razoável.
Depois de Rousseau, o completo converteu-se em "Il a de l'ame" - tem alma.
E os britânicos se entusiasmaram.
Na primavera de 1766,
Rousseau, fugindo de seus inimigos,
reais e imaginários,
acabou em Staffordshire.
Richard Davenport deixou livre sua casa de campo de Wooton,
para que o grande homem tivesse um abrigo confortável
e que a comunhão com a natureza deleitasse seu coração.
Rousseau podia esperar uma recepção calorosa.
Seus dois livros mais famosos,
"Emile", um manual sobre educação natural, apenas disfarçado como um romance,
e o choroso "A Nova Heloísa",
com o amor proibido entre tutor e aluna como tema principal,
foram grandes êxitos entre as classes soluçantes e chorosas.
À distância, Rousseau poderia ser popular.
Mas de perto, era um paranóico.
Em Derbyshire, estava convencido de que os criados colocavam cinzas em sua sopa.
Em 1768, após mais algumas ligeiras imaginações,
deixou a Inglaterra.
Mas suas idéias ficaram
e deixaram profundas raizes entre uma burguesia àvida de leitura.
Homens como Brooke Boothby, vizinho de Derbyshire
que foi descrito por Joseph Wright
como um homem de sentimento, em harmonia com os ritmos da natureza.
O que atraia às pessoas emotivas das províncias inglesas
era a crença de Rousseau de que a urbanidade, as graças da cidade,
era sintoma da podridão do velho mundo,
a máscara cosmética atrás da qual se escondia uma desfigurada enfermidade
de uma cultura falsa, desapiedada.
O antídoto era esfregar a máscara, removê-la
e devolver aos homens e mulheres adultos
a sua verdadeira natureza, a simplicidade de uma criança.
A infância foi onde a revolução de Rousseau começou.
Para preservá-la adequadamente,
a verdadeira natureza das crianças havia que alimentá-la, literalmente, com o peito.
Como as crianças tinham sua nutrição, tanto física como moral,
do leite de sua mãe, teria de ser o leite de sua própria mãe.
As enfermeiras profissionais poderiam contaminá-las com vícios e deficiências.
Portanto, a vida saudável, patriótica e virtuosa,
começava no mamilo alimentício.
Outra lição de Rousseau:
esqueçam de aprender dos livros.
Empanturrar suas cabeças com fatos e números prejudicariam suas almas animais,
seu instinto de liberdade.
Atirem-nos fora e os abandonem.
Mas numa época de elevada mortalidade infantil,
fazer um grande investimento emocional em teus filhos
poderia virar contra ti.
Como discípulo de Rousseau, Brooke Broothby descobriu
quando sua filha Penélope morreu na idade de cinco anos
que o sentimento romântico pode ser tão intenso pela dor como pela felicidade.
Era o mais esquisito na forma e intelecto, seus infelizes pais arriscaram tudo
nesta frágil casca e a ruína foi total.
Este comovedor memorial fala do horror pelo perdido,
da felicidade desfrutada e sentida efêmeramente
para ser cruelmente destruida.
Era essa também a visão romântica da Bretanha, um paraíso em perigo.
Quando as pessoas de sentimento apeavam de seus cavalos e os deixavam em seus parques
o que viam era a realidade do campo.
Com a explosão da população, milhares de pessoas deixaram o campo
e tornaram-se dependentes das máquinas da nova revolução industrial.
Poetas como Oliver Goldsmith
sentiam-se oprimidos pela visão de aldeias desertas.
Doce e sorridente aldeia,
com seu gramado mais charmoso,
Tuas diversões fugiram e tiraram todos teus encantos,
Entre teus ramos a mão do tirano desponta,
e a desolação entristece todo teu verde.
Um só proprietário oprime todo o domínio,
e o médio cultivo te priva da tua planura sorridente.
O mal assola a terra,
acelerando os males de sua vítima,
onde se acumula a riqueza e o homem decai.
Em 1769, o ano em que Oliver Goldsmith escrevia este poema,
um oficial militar com consciência social, Philip Thicknesse,
publicou uma história horrível de quatro pessoas que morrem de fome
em um asilo para pobres em Datchworth.
Para os britânicos mais auto-complacentes,
supostamente isto ocorria em lugares do continente infestados de ratos,
não em Hertfordshire.
Àqueles que tinham olhos para ver mais além dos parques,
haviam duas questões sobre o verdadeiro estado do campo britânico.
O que fazer e a quem culpar? A Igreja era responsável?
Haviam enriquecido muito a Igreja, tinha-se tornado demasiado respeitável
e indiferente às suas obrigações em favor dos desafortunados?
Ou era uma questão para os latifundiários ausentes,
cujas fazendas eram dirigidas por homens inflexíveis
com os olhos postos só na obtenção de lucros?
Ou era um erro pensar em termos do que uma vez foi?
Teria sido nada mais que aplicar uma camada de cal
sobre um edifício que estava podre de cima abaixo?
A resposta seria não a caridade, mas a política?
Thomas Bewick certamente pensava assim.
Cresceu nos arredores de Newcastle,
não precisava que Rousseau lhe contasse nada sobre a liberdade do ar fresco.
Bewick havia faltado da escola
e em vez de preencher sua lousa com conhecimento,
preencheu-a compulsivamente com desenhos,
encontrando, assim, instintivamente seu caminho e sua vocação
como o primeiro grande ilustrador da história natural britânica.
Ainda mais, seus desenhos não só eram dirigidos a bibliotecas de cavalheiros.
As pessoas comuns queriam um pequeno livro
repleto de imagens de pássaros e animais das ilhas britânicas.
Mas Bewick tinha algo mais em mente.
Aninhado entre o Maçarico (cabeça-ôca) e o Ampelis europeu
havia um retrato de seu mundo,
a chuvosa Northumberland, um lugar escuro e pedregoso,
um mundo com muita dor.
Em seus cemitérios, os cães rosnam.
Nas margens das estradas, pobres bastardos quebram pedras.
Nos seus sótãos, velhos e pobres sorvem ruidosamente a sopa.
Tudo isto enojava Thomas Bewick.
Tudo isto converteu Thomas num radical.
Em Newcastle, misturou-se em clubes de debates
com homens como ele - artesãos cultos, comerciantes e profissionais
apaixonados por sua devoção à liberdade.
É o bom comportamento e a consequente personalidade
da grande massa do povo
o que enobrece uma nação.
E o radicalismo aceso de Bewick não era apenas raiva.
Era uma emoção aos novos políticos, solidariedade,
um refutável sentimento em favor das vítimas da injustiça e sofrimento;
um reconhecimento de que, no fundo,
todos estamos unidos por uma natureza humana comum.
Foi uma chamada à ação que ressoou nos púlpitos de todo o país.
Como podia alguém sentir o sofrimento de outros
e não querer fazer todo o possível para remediá-lo?
Pela primeira vez, havia uma política de sofrimento,
uma que não podia mais fechar os olhos
à situação das crianças, dos idosos, dos doentes e pobres.
Todavia, os poderosos fecharam os olhos.
Acreditavam que a Revolução Gloriosa de 1688
havia expulso Jacobo II com seu despotismo católico
e havia criado uma terra de homens livres.
Em 1788, com o centésimo aniversário em cima,
que tentador era seguir dando-se palmadinhas de satisfação
por ser o país mais iluminado de todo o mundo.
Mas para Bewick e seus amigos não havia razão para auto-satisfação.
O problema da Revolução Gloriosa, segundo os radicais,
foi sua apropriação pelos canalhas
que havia se pervertido para satisfazer sua própria ganância e ambição.
Rechearam o Parlamento de aduladores e venderam seu voto para pagar suas contas.
A lição esquecida de 1688 era que as pessoas tinham o direito de resistir,
tinham o direito de mudar o governo,
o direito ao soberano que compreendesse a realidade de uma monarquia limitada.
Se a memória daquela primeira revolução significaria algo,
uma segunda revolução, de justiça, teria de fazer boa sua promessa.
Então, em Paris de 14 de julho de 1789,
o mundo iria saber quão limitada pode ser uma monarquia.
A Bastilha foi tomada e nada voltou a ser o mesmo.
Embora a fortaleza teria tão só oito presos,
suas oito sombrias torres e sua artilharia apontando para a cidade
tinha-se tornado num símbolo detestável
da antiga monarquia absolutista.
No mundo da Bewick, faziam-se brindes
pelo amanhecer de uma nova era da verdadeira liberdade
e à queda dos déspotas.
E não passou desapercebido que tinham sido pessoas comuns,
armadas com mosquetes e slogans, que agrediram a cidadela.
A estimulante conclusão era que as pessoas, se pressionadas em demasia,
poderiam e conseguiriam recuperar seus direitos.
A monarquia seria demolida.
Então, quando o Dr. Richard Price, de seu púlpito em Londres,
felicitou o Rei George III por recuperar a sensatez,
atreveu-se a avisá-lo de que, a menos que retornasse ao senso comum político,
iria também tomar o caminho de Luis XVI.
Esteja ciente Sua Alteza da natureza de sua situação
para considerar-se a si mesmo o mais adequadamente servidor
do que soberano do povo.
Aos jovens, uma repreensão ao rei em nome da liberdade
era um prazer inebriante.
William Wordsworth nasceu em Lake District,
do outro lado dos Peninos que Bewick.
Também cresceu com amor à natureza.
Agora, este amor se estenderia a todos os oprimidos da humanidade.
Em 1790, no primeiro aniversário da tomada da Bastilha,
aos 19 anos, Wordsworth estava na França.
O que viu ali, descreveu como "A natureza humana, que parecia renascer."
Sem casa sob a estrela da tarde, vimos danças de liberdade.
E nas últimas horas de escuridão,
bailes ao ar livre.
Elevamos ao dar um sinal e formamos um anel
mão contra mão dançamos ao redor da mesa.
Todos com o coração aberto, e cada lingua gritando em regozijo.
Levamos um título honrado na França,
o título dos ingleses.
e, com hospitalidade, nos aclamaram
como seus precursores duma gloriosa causa.
Mas nem todos sentiram que isto fosse maravilhoso.
Edmund Burke, eloquente parlamentar irlandês
que era amigo dos americanos,
tinha mudado de opinião sobre a revolução.
Também ele havia levantado sua taça para brindar a aurora da liberdade
em julho de 1789.
Mas quando começaram os linchamentos,
Burke decidiu que a revolução era, acima de tudo, um ato de violência,
denunciando-a em sua mordaz "Meditações sobre a Revolução Francesa."
Em meio ao assassinato, ao massacre e ao confisco, perpetrados ou premeditados,
planos estão sendo desenvolvidos para a "boa ordem" da futura sociedade.
Atuam entre os gritos tumultuosos
de uma variada multidão de homens e mulheres ferozes, infelizmente já perdidos.
É difícil saber o que fez mais estragos, o fato que a denúncia implacável de Burke
viera de um amigo da liberdade e da reforma,
ou o que desaprovava os radicais
alguns dos tópicos mais sentimentalistas sobre a natureza.
Assumiam que a natureza o abarrotava de amor à humanidade,
que a natureza era fraternal, era cosmopolita.
"Tolice!" disse Burke. "A natureza te fará criar raízes num lugar.
"Ensina-te a amar o teu lugar de nascimento,
"tua linguagem, teus hábitos. "
"A natureza é patriota".
O que Burke mais odiava
era a ingenuidade dos "bem intencionados" políticos Whig,
como seu amigo Charles James Fox,
colocando slogans nas mentes das pessoas
sem a suficiente educação para compreender o que estavam destruindo.
"Democracia? mais bem masocracía!" clamava Burke.
Cabeças cravadas em lanças,
a lei da turba de linchamentos,
não queremos isso aqui.
Mas, para um entusiasta impenitente esta era uma pantomima.
Tom Paine, cujo livro "Senso Comum"
tinha apoiado a Revolução Americana,
enfrentou-se agora com Edmund Burke.
Em 1791,
publicou a sua tréplica, "Os Direitos do Homem."
Era uma brilhante e calculada resposta.
Burke tinha usado linguagem floreada
para descrever o tosco ataque da multidão à Rainha da França.
Então Paine, em contrapartida,
usou a linguagem da rua, direta e sem floreios, das pessoas comuns,
o tipo de pessoas que Burke se referia como "multidão de porcos".
E o que a mensagem de Paine implicava
era que a natureza lutava ao lado da liberdade.
Ao nascer, dizia, temos direitos naturais
que nenhum governo ou soberania pode violar.
Quando Paine gritava, as pessoas ouviam.
Vendeu 40.000 cópias de "Os Direitos do Homem"em poucos meses,
e aqueles que compraram eram novatos na política,
homens como Bewick, homens com amarguras a resolver.
Ao tornar-se mais ruidosos e visíveis,
as forças de ordem, partidárias da Igreja e do Rei
começaram a se por visivelmente nervosas.
O Primeiro-Ministro, William Pitt, com apenas trinta anos,
uma vez aclamado como amigo da reforma, estava agora do lado conservador.
Olhava os acontecimentos da França com crescente temor e indignação.
Era hora de brandir as espadas, mobilizar as milícias,
rufar os tambores patrióticos,
e assegurar-se de que Tom Paine e os como ele
fossem silenciados antes de causar danos.
Queimaram casas,
e os suspeitosos democratas foram espancados.
Tom Paine escapou a tempo.
Foi acusado de traição.
Aqueles que permaneceram leais a Paine
agruparam-se em solidariedade e desafio.
Um lugar onde pensamentos perigosos eram positivamente benvindos
era o pátio da Igreja de São Paulo,
onde Joseph Johnson, um solteirão de Liverpool, escritor e editor,
agia como protetor dos que os chamava de seu "bando de rufiões".
Em um domingo qualquer,
poder-se-ia encontrar uma mistura de pintores como William Blake,
agitadores em favor de reformas parlamentares,
democratas e celebridades como Tom Paine.
E também mulheres... articuladoras, inteligentes e apaixonadas.
Entre essas mulheres, a mais surpreendente de todas
era Mary Wollstonecraft.
Foi a alma da época.
Mary Wollstonecraft foi uma mulher-revolução.
Vivendo uma existência insegura como escritora,
suprida de um teto por Johnson, Maria se apressou a imprimir
escandalizada pelas reflexões de Burke.
Enquanto o fazia, notou que os direitos do homem não valiam grande coisa
se excluíam a outra metade da sociedade humana.
Então ela escreveu sua própria versão corrigida,
"A Reivindicação dos Direitos da Mulher"
Se sabia louvar a natureza como portadora da liberdade e da igualdade,
tinha que pensar sobre o estado natural da mulher.
A razão, dizia,
da segregação das mulheres
era que desde quando pequenas
todo o seu ser se destinava à única finalidade soberana
de agradar ao homem.
Ela não teria tempo para as ideias de Rousseau
de que as mulheres, por sua própria natureza,
só podiam ser mães e esposas.
Não havia nada nela que pudesse ver em sua natureza
que a desclassificasse de ser uma verdadeira cidadã.
Por se atrever a dizer estas coisas, Maria foi catalogada como "Antinatural".
Horace Walpole, o ensaísta, chamou-a "hiena de anáguas".
Como Wordsworth, antes dela,
Wollstonecraft esperava que, na nova República Francesa,
encontraria mentes semelhantes com quem compartilhar suas radicais ideias.
Mas no que desembarcou foi na paranóica ditadura dos jacobinos.
O rosto de Rousseau e seus livros estavam por toda parte.
Escravas e obedientes a seus dogmas,
as mulheres francesas que se envolviam em política eram obrigadas a se calar
e cuidar de seus bebês pelo bem da pátria.
As que não obedeciam
eram agredidas nas ruas.
Em agosto de 1792, a monarquia havia sido derrubada
e substituída por uma república revolucionária.
Um mês mais tarde, quando os exércitos da Prússia e Áustria invadiram a França,
a paranóia se tornou sangrenta.
1.400 homens e mulheres cativos nas prisões da França
foram demonizados como quinta-colunas e massacrados a sangue frio.
No século XXI, sabemos tudo sobre a dupla personalidade das revoluções
a transformação do sorridente rosto da liberdade
à terrível realidade do terror e um estado policial.
Mas, no século XVIII, não se havia lido "O Guia Rápido à Revolução",
especialmente seus mais apaixonados fãs,
que testemunharam, em primeira mão, os dias de flores, liberdade e fraternidade
e para quem a idéia de liberdade e de igualdade era uma associação natural.
Para começar, Maria compartilhava a companhia e otimismo
dos exilados americanos, irlandeses, escoceses e ingleses,
que se reuniram no Hotel White em Paris.
Na primeira fervura de agitação revolucionária,
um pouco de sangue não iria arruinar o êxtase da liberdade. A própria Maria escreveu:
Crianças de qualquer idade se ferirão se brincar com objetos afiados.
Mas então, enquanto o despotismo da coroa
era substituído pelo despotismo do estado policial,
as dúvidas começaram a aparecer.
Apenas há algumas semanas de sua chegada, Maria viu Luis XVI ir a julgamento.
Curiosamente, encontrou-se chorando pela dignidade de sua compostura.
Não era absolutamente o que ela esperava.
Irônicamente, o mais fervoroso porta-voz
das politicas radicais caíu sob suspeita.
No verão de 1793, Tom Paine passou de ser um herói local a um pária.
O erro tinha sido cometido antes,
durante os debates sobre a sentença de Luis XVI.
Paine era o mais famoso anti-monárquico,
mas argumentou com muito valor e muita imprudência
que dado que Luis era já irrelevante, porque sentenciá-lo à morte?
Também argumentou que uma verdadeira república livre
era devida, inclusive ao seu pior inimigo,
a proteção contra a opressão.
Isto não só o fez impopular, mas perigosamente indesejável.
No verão, chegou o momento de pagar por suas ações.
Paine foi encerrado na Prisão de Luxemburgo que vemos aqui.
Um acidente absolutamente fantástico o salvou da guilhotina.
Quando um condenado estava prestes a ser decapitado,
vinha alguém e marcava uma cruz
na porta de sua cela.
No caso de Paine,
as portas estavam abertas, assim a cruz foi marcada
na face interior da porta.
Com as portas fechadas, a cruz era invisível.
Paine escapou com sua citação "O Cutelo Nacional"
por um acaso do destino.
À medida em que as detenções e execuções se aceleravam,
a natural exuberância de Maria começou a diminuir.
Ficava em sua casa,
assustada e desesperançada, escrevendo a Joseph Johnson.
Tenho me visto através da porta de vidro frente a mim.
Mãos sangrentas ameaçando-me.
Deveria ter conservado o gato, para poder ver algo vivo.
A morte, em suas múltiplas e temíveis formas,
apoderou-se de minha imaginação.
Vou à minha cama e, pela primeira vez na minha vida,
não posso apagar a vela.
Na Primavera de 1793,
a guerra entre a França e a Grã-Bretanha mudou tudo.
Em vez de serem tratados como hóspedes,
os exilados eram suspeitos de serem quinta-colunas,
comprometidos por sua amizade com políticos franceses
e os guillotinados como traidores à República.
Maria sentia que seria sua vez qualquer dia.
A salvação apareceu sob graciosa forma
de um empresário americano e vendedor de imóveis, Gilbert Imlay.
Ele a registrou como sua esposa americana
e isto a liberou da acusação de ser inimiga da França.
Cuidando de seu filho num tranquilo jardim nos arredores de Paris,
Maria, a feminista, se salvou dos revolucionários pela sua maternidade.
Mas isso não teria um final feliz.
Enquanto Maria se tornava mais devota,
as viagens de Imlay se tornavam misteriosamente mais prolongadas.
Quando ela o seguiu em Londres,
ele se encontrou com outra amante.
Em uma noite chuvosa de outubro de 1795, perambulou por Putney o suficiente
para garantir que o seu melhor traje se encharcasse completamente.
Então saltou no Tâmisa,
deixando uma nota para Imlay.
"Deixe que meus erros durmam comigo."
Mas não se lhe foi permitido o poético suicídio.
Um barqueiro a tirou do rio.
Teria 37 anos e parecia ter perdido tudo, exceto seu filho,
sua fé na revolução e nas pessoas,
sua crença na possibilidade duma vida independente para a mulher.
A bondade da natureza devia parecer como uma piada cruel.
Meses depois, parecia que ia receber uma segunda chance para a felicidade
na forma de William Godwin,
um filósofo que conheceu na casa de Joseph Johnson.
Godwin era notório por sua rejeição ao romance,
assim como ao casamento e a propriedade privada.
Mas o fogo de Maria ardeu o suficiente para derreter seus princípios.
Embora tivessem acordado em não coabitar,
o inimigo do casamento e a feminista
casaram-se na Igreja de St. Pancras.
E enquanto passavam seus meses de gravidez,
encontraram-se relaxando no conforto conjugal
ao ponto em que Goldwin estava disposto, pelo menos no privado,
a admitir a força das emoções, bem como das do pensamento.
O que fez o final tão insuportável.
Quando a hora do parto chegou, Maria chamou uma parteira.
Mas, depois de o bebê nascer,
a placenta permaneceu firmemente aferrada na parte superior do útero.
O parecer dos obstetras da época
era que, a menos que a placenta fosse retirada rapidamente,
haveria um risco de infecção.
Então, um médico do Hospital de Westminster foi chamado,
meteu sua mão em Maria e a tirou.
A placenta saiu em pedaços
enquanto Maria jazia em agonia, sangrando.
Ela que tinha passado por tantos horrores, tão perto da morte,
e de algum modo conseguido sobreviver.
Desta vez, com tanto por viver, não haveria fuga.
Morreu uma semana após de septicemia.
Godwin escreveu a um amigo,
Minha esposa está morta.
creio firmemente que não existe outra igual a ela no mundo.
Sei por experiência que nascemos um para o outro.
Não tenho nenhuma expectativa de voltar a ser feliz.
Ele se lembra dela como a fundadora do feminismo moderno,
por manter uma postura, extraordinária por sua coragem e clareza,
que a natureza da mulher não devia ser confundida com sua biologia.
Mas a natureza, a biologia, a matou.
Mais além de seu leito de morte,
a luta entre a liberdade e a repressão se encarniçou,
não se detendo a nada.
Reunir-se com radicais poderia metê-lo em sérios problemas.
E a ata de direitos foi suspensa, as imprensas destruidas,
as portas da liberdade fechadas violentamente.
E não é de admirar, pois o que estava em jogo não podia ser mais importante.
A república francesa avançava,
e a Grã-Bretanha era vulnerável onde sempre havia sido: na Irlanda.
Irlandeses republicanos estavam com amigos da revolução no White Hotel.
Eles haviam sonhado com uma revolta contra os ingleses.
Mas, para que os sonhos se tornassem realidade,
a rebelião deveria coincidir com a invasão francesa.
Os franceses acabaram vindo, mas muito tarde e à costa errada.
Quando chegaram à Baía Killala no oeste, no verão de 1798,
a revolta dos irlandeses unidos no leste tinha sido esmagada
pelo exército britânico em Vinegar Hill.
Ociosos no campo do Condado de Mayo, muito longe de Dublin,
a única ajuda irlandesa vinha de uma tropa de camponeses, professores e padres.
Todos os jogos sangrentos que conhecemos também começaram aqui
homens mascarados chegando à meia-noite, ao amontoado de armas,
a falta de misericórdia mostrada a qualquer pessoa levemente suspeita
de colaborar com os britânicos.
A carnificina tipo golpear e correr não era uma estratégia.
A invasão foi bloqueada e começou a retirar-se.
Por último, os franceses capitularam.
Wolfe Tone, um líder protestante republicano irlandês
que veio com eles, foi condenado por traição,
mas cometeu suicídio na prisão antes de ser enforcado.
Pelo menos 30.000 irlandeses e irlandesas morreram em 1798,
outra das tragédias que marcaram o país,
mais uma que seria lembrada de forma indelével,
embora não com exatidão,
como uma guerra de protestantes ingleses contra católicos irlandeses.
Para Pitt e os políticos de Westminster
era um aviso: os inimigos à porta na Irlanda,
e outro enorme exército francês acampado às margens do canal.
Uma época de nervosismo.
E uma época para os radicais traçarem questões difíceis.
Como permanecer apoiando a revolução sabendo o que sabiam,
tendo visto os sonhos tornarem-se em derramamento de sangue e violência?
William Wordsworth havia sido tão fervoroso como qualquer um
nos primeiros dias de esperança revolucionária.
Agora essas esperanças tornaram-se em dúvidas.
Para 1798, com o destino da Bretanha pendurada na balança,
ele alugou uma casa em Somerset perto de Samuel Taylor Coleridge.
Tal como Mary Wollstonecraft,
Wordsworth perdeu seu coração na Revolução Francesa.
Mas sua amante e mãe de seus filhos tinha sido uma monárquica.
Mais tarde, em 1792, com a guerra inacabada,
teve de decidir entre ficar, pondo em perigo sua vida,
ou voltar à Inglaterra.
Escolheu a segunda opção.
Ser um amigo do povo agora seria ser um inimigo da França.
Por quê? Porque a França, sob a forma de Napoleão, tinha abandonado a liberdade,
para converter-se num vulgar tirano,
empenhado em colocar a Bretanha de joelhos.
O outro grande amor de Wordsworth, a natureza, era mais forte do que nunca,
mas agora a natureza o fazia pensar não em revolução, mas no lugar.
Mais triste e sábio como agora era. Poderia preservar seu antigo fogo?
A solução foi abandonar o dogma político pela poesia.
A esperança não jazia no sangue derramado em Paris,
mas sim no exemplo moral do povo,
cujas vidas eram vivenciadas na simplicidade e decência,
perto da natureza inglesa.
Agora o trabalho da poesia
era voltar às audíveis vozes
dos feridos e dos pobres.
Ela era tão alta, ou mais que um homem, sem um chapéu que a protegesse do calor
Um longo e desbotado abrigo usava -
Um manto, chegando-lhe aos pés
Ante mim, implorando permaneceu
Derramando lágrimas como o mar
Pena trás pena.
Em terra inglesa, tal miséria sabia que não podia existir.
A natureza ainda conservava o poder de mudar as vidas
mas não através de uma agenda política.
Um voto nunca faria alguém feliz.
Uma nevada em fevereiro, ou o amor de mãe por seu recém-nascido, talvez.
Ele voltou às suas raízes em Lake District,
estabelecendo seu lugar em Grassmere.
A natureza significava agora algo diferente para Wordsworth e Coleridge.
Já não os conectava com o resto do mundo. Separava-os dele.
Quando falavam de liberdade, já não se referiam à solidariedade.
Referiam-se à solidão.
Nos lagos, o afeto ao lugar
podia ser tão inocente como um piquenique.
Mas, face à guerra,
a lealdade nativa significava algo muito mais violento.
A natureza foi recrutada para a propaganda patriótica.
Cada vez que a invasão ameaçava, este insular sentimento de britaneidade
voltava mais carregada emocionalmente.
Qualquer suspeito de simpatias radicais era tachado como colaborador.
O país jamais tinha sido tão maciçamente mobilizado.
Não apenas um exército e uma grande frota,
mas uma milícia de 75.000 voluntários.
E, em 1803, no caso de uma invasão,
outros 300.000 prontos a pegar em armas
em defender a alma e o lugar contra a França sem Deus.
Quando Napoleão, convertido em mestre de história, exibiu o Tapete Bayeaux
para mostrá-lo aos britânicos que antigas conquistas podiam ser repetidas,
o que obteve foi um bruto clamor de parte da classe.
E o que é mais,
William Pitt não estava disposto a cair com uma flecha no olho.
Seu governo da guerra se mobilizou numa escala nunca antes vista.
Quando o Rei passou em revista 27.000 voluntários em Hyde Park,
em outubro de 1803,
meio milhão dos seus súditos o aclamaram.
Este era o sonho de Edmund Burke tornado realidade,
a dinâmica territorial em defender a alma e o lugar
reinvindicada como a mais natural paixão de todas.
Wordsworth agora acrescentava sua voz
aos que diziam que a natureza não era o berço da democracia,
mas o altar do patriotismo.
Salve esta honrosa terra de todo senhor
que não seja a razão e a espada britânicas.
A nostalgia de Burke pela Inglaterra do passado,
preservada na profundida paisagem inglesa,
engendrou um extraordinário fervor ao longo da história.
As armaduras foram arrancadas dos celeiros, polidas e colocadas nos salões
para proclamar o orgulho patriótico do povo.
Por mais de uma década a guerra se desenvolveu,
enquanto a Bretanha enfrentava o império de Napoleão.
Campanhas épicas na Espanha e Portugal, um conflito global da Índia ao Caribe,
com espetaculares vitórias navais como a de Trafalgar.
Durante estes perigosos anos,
as misérias do país foram silenciadas.
A propaganda patriótica afogava qualquer voz descontente.
A sinfonia de canhões e tambores atingiu seu clímax
nos alagados campos de Waterloo.
Contemplando a carnificina no dia seguinte,
Wellington célebremente disse que o pior após uma batalha perdida
é uma batalha ganha.
Não sabia o quão proféticas seriam suas palavras.
Em vez de saborear os frutos da vitória,
os pobres e desempregados procuravam qualquer coisa para comer.
A economia da Grã-Bretanha de pós-guerra
caiu na mais terrível recessão nunca vista.
Mesmo antes da vitória, o êxito de Napoleão ao fechar os mercados europeus,
junto com a guerra contra os Estados Unidos em 1812,
destruíu a procura de produtos britânicos.
Milhares de tecelões e costureiras foram despedidos
ou seus pagamentos reduzidos.
Milhares mais: soldados desmobilizados,
fabricantes de munições, produtores de uniformes,
foram jogados aos asilos para pobres.
A miséria se tornou uma violência.
Máquinas foram destruídas em Yorkshire e Lancashire.
Enquanto multidões perdiam seu emprego, os guardiães da natureza o tinha.
Com a crise em seu pior aspecto,
Wordsworth tinha um posto de distribuidor de selos em Westmorland.
Chegando as eleições, em gratidão,
fez campanha pelo candidato local em oposição a um radical.
Era agora o servidor mais obediente do governo.
Aqueles que se sentaram a seus pés, anos antes,
quando parecia ser o primeiro e verdadeiro poeta do povo, horrorizaram-se.
Haviam outros heróis agora,
herois para tempos pouco poéticos.
William Cobbett, por exemplo.
Ninguém confundiria William Cobbett com um poeta.
Deixou a granja de seu pai na idade de 14 anos,
educando-se a si próprio.
E foi por isso que se inclinou à classe de linguagem,
mundana, persuasiva, direta e belicosa, a língua de bares e estábulos,
foi essa dinamite comunicadora.
Os trabalhadores parecem ser lastimosamente pobres.
Seus aposentos apenas melhores que pocilgas,
e sua aparência indica que sua comida não está próxima à de suínos.
Suas cabanas em ruinas se amontoam sobre terrenos ao lado da estrada
onde o espaço é mais extenso do que o caminho demanda..
Seu panfleto, "O Registro Político Semanal"
foi uma revolução unipessoal no jornalismo,
arrotando indignação em 50.000 cópias por semana.
Não há dúvida de que até aparecer Cobbett
ninguém havia chegado às pessoas comuns,
privadas de seus direitos de berço por parasitas sociais,
transformando-os em animais políticos.
Cobbett foi capaz de mobilizar um exército de centenas de milhares de peticionários,
suficientes para enervar o governo
e começar murmúrios de nova revolta dos camponeses.
Mas no momento crítico, onde ele estava?
Na América, coordenando a repatriação dos ossos de Tom Paine.
Mas o exército de Cobbett, os soldados da democracia, não precisavam de relíquias sagradas.
Precisavam de um líder. O que tiveram, pelo contrário, foi um desastre.
Eles não haviam pesquisado.
O encontro de massa que foi convocada em agosto de 1819
no Campo de S. Pedro de Manchester devia ser, segundo seus organizadores, ordenado,
mesmo nostálgico, demandando só que os direitos dos britânicos nascidos livres,
habeas corpus, liberdade de imprensa, direito à honesta representação - foram restaurados.
Devia ser um festival pela liberdade.
As forças de ordem de Londres e os magistrados de Lancashire não o viam assim.
Manchester, com seus tecelões de algodão parados
e seus agitadores super-educados,
era um viveiro de conspiração.
Tinha de dar-lhes uma lição, antes que a revolução criasse raizes.
A impaciente cavalaria de Manchester estava disposta a aceitá-los,
ao abrir-se caminho entre as multidões
para prender o orador, Henry Hunt.
Uma menina morreu pisoteada
sob a cascos de seus cavalos.
O local tornou-se num caos de sangue,
a multidão enfurecida em torno dos soldados,
tropas montadas, tentando libertá-los, abrindo caminho através dos corpos.
Onze pessoas morreram,
centenas feridas.
Pelo menos cem dos feridos eram mulheres e crianças.
Assim é como uma testemunha ocular,
o artesão Samuel Bamford,
lembra.
Em dez minutos, o lugar era um espaço aberto, quase deserto.
Ficaram os restos da campanha, poucas hastes de bandeiras quebradas,
alguns cartazes rasgados, caindo,
enquanto que, por todo o lugar, esparramavam-se chapeus, lenços, sapatos,
pisoteados e rotos.
Os soldados desmontaram. Alguns soltavam os arreios de seus cavalos
e outros limpavam suas espadas.
Peterloo golpeou aos radicais de toda a vida
como Thomas Bewick com repugnante horror.
"Antinatural" foi a palavra que soou em todas as denúncias.
Os homens malvados que fizeram uma coisa assim
tinham perdido para sempre o direito de serem considerados
como classe governante natural da Grande Bretanha.
Eles pecaram além de toda desonra.
Esta falange tem defendido sua terra e temo que a manterá até
que a violência do povo enfurecido os rompa
ou, talvez, até que as opiniões crescentes contrárias a uma ordem tão torcida
na condução dos assuntos desta grande nação
tornar-se evidente para a imensa maioria.
Milhares de pessoas reagiram a Peterloo
atirarando-se eles mesmos em campanhas de ação prática,
cruzadas às que embarcaram com fervor religioso.
Aqueles que trabalhavam por uma mudança
faziam agora, não apenas nos clubes políticos secretos,
mas também à luz das igrejas e capelas.
Seus objetivos eram as instituições antinaturais:
o monopólio da Igreja Anglicana, a negação do voto aos irlandeses católicos,
nas cidades manufatureiras, um clamor a ter seus próprios parlamentares.
A menos que fizessem estas coisas, diziam, a revolução
era mais, não menos, provável.
Em 1830, uma nova revolução na França e uma onda de violência no campo inglês
significaram que os votos de mudança não podiam ser negligenciados.
Os Whigs subiram ao poder pela primeira vez desde antes de 1789
como os defensores da reforma sem revolução.
A Lei de Reforma Parlamentar que ditaram em 1832
se tornou realidade.
Mas as provincias inglesas eram o único lugar
onde devia se fazer alguma coisa para evitar um banho de sangue.
No Suriname, Guiana e Jamaica, empurrados ao limite da esperança e do desespero
haviam rebeliões de escravos reprimidas com tanta ferocidade
que fez Peterloo parecer um piquenique.
(SOLO BARITONO) # Dirige-te
# Dirige-te
# Dirige-te
# a Jesus... #
A mensagem do Romantismo - somos todos irmãos e irmãs,
todos compartilhamos, louvando a Deus, a mesma espécie -
podia, finalmente, abraçar-se, não como um grito de vingança,
ou uma chamada às barricadas, mas como o hino de uma grande cruzada pacífica.
O abolicionismo curou velhas feridas.
Uniu William Wordsworth e Thomas Bewick
sob uma grande tenda de justiça.
Os organizadores da campanha usaram armas da era das boas causas -
as reuniões de memórias, com seus hinos,
suas propagandas turísticas e suas exposições itinerantes.
Modelos de navios negreiros.
Cofres cheios de mercadorias que poderiam ser trocadas por escravos.
"Meu Senhor, ele me chama
# Me chama através do trovão... #"
Em 1834, a Bretanha aboliu a escravatura a tempo, ao contrario de algumas lendas,
em que o mercado para seus produtos estavam se tornando menos lucrativo.
Foi a primeira grande vitória do século XIX
para o partido da humanidade.
Então, qual era o lugar onde a Bretanha se regeneraria
não no campo, como imaginava Wordsworth,
mas nas capelas, igrejas e prefeituras?
Ele havia suposto que nossa redenção dependia de fugir das cidades,
que o melhor da natureza humana murchava e perecia
quando uma cerca viva se convertia numa rua.
Talvez tenha sido o fim do seu sonho
de um retorno à inocência de uma natureza incorrupta.
Mas esse sonho nunca teve a oportunidade de tornar-se realidade,
ninguém na Grã-Bretanha, que se encaminhava à modernidade industrial.
O que Wordsworth queria era que a natureza, o campo britânico,
fosse a negação da cidade.
Inversamente, de alguma forma tinha-se tornado um cúmplice.
Em vez de precisar internar-se no coração envolvente do campo,
aqueles que nunca poderiam ter feito a viagem
poderiam agora encontrar a natureza em seu próprio quintal.
Em lotes dados pela companhia ferroviária,
com o eco das antigas faixas de terra que haviam perdido pelas cercas.
Em jardins anexos a casas com terraços,
que substituiram as cabanas que ficaram prá trás.
Pela primeira vez, um parque não era o terreno privado de algum aristocrata,
mas um local público na cidade sem barreiras de classe e propriedade
como aqui, em Birkenhead, em 1840,
com lagos, caminhos e relvados,
um lugar onde os pais levariam seus filhos
para dar-lhes algo das alegrias da natureza.
Não era, suponho, sublime...
Porém tampouco era, em absoluto, ridículo...